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Dom Fernando Saburido: “Foi um ano especial na minha vida”


16/08/2010 - Folha de Pernambuco - Grande Recife

Conhecido por seu perfil conciliador e por defender a interação entre a Igreja Católica e as instituições da sociedade civil, o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, conversou com a Folha de Pernambuco sobre o seu primeiro ano à frente da arquidiocese, completado hoje. Da recepção calorosa na cerimônia de posse ao polêmico projeto de um Shopping Center na Tamarineira, Saburido relembrou os principais momentos que viveu desde o dia 16 de agosto de 2009. Para comemorar a data, a arquidiocese vai promover uma missa de ação de graças em homenagem a ele na próxima sexta-feira, na igreja do Colégio Salesiano, no bairro da Boa Vista. Esse dia também foi escolhido por marcar os dez anos do ordenamento do religioso como bispo, no dia 20 de agosto de 2000.

Qual foi a sua primeira impressão após ser nomeado Arcebispo de Olinda e Recife?

Fiquei muito surpreso com a receptividade popular. De minha parte, estava muito contente com a chegada na minha terra e o encontro com o meu povo, apesar de trazer muita saudade de Sobral (CE). Foi uma diocese que marcou muito a minha vida, mas eu entendi que a Igreja estava me pedindo para assumir essa missão aqui no Recife e eu não podia, de forma alguma, me omitir.

Que desafios o senhor encontrou ao assumir?

Eu tive que, inicialmente, estruturar um pouco os espaços físicos que tínhamos. Achei importante trazer a sede da arquidiocese (que funciona atualmente no Palácio dos Manguinhos, nas Graças) para mais perto do centro. Encontrei a instituição em crise econômica e isso reduziu os custos. A Cúria (Metropolitana, na Várzea, antiga sede da arquidiocese) está funcionando hoje como um centro pastoral. Foi um ganho porque antes não tínhamos um espaço para acolher as pessoas em encontros mais prolongados.

Que ações o senhor destacaria nesse primeiro ano à frente da arquidiocese?

Uma da coisas importantes que aconteceu na minha gestão foi a assembleia (pastoral) que aconteceu em fevereiro, no Centro de Convenções, da qual participaram quase 700 pessoas, entre leigos e religiosos. Naquela assembleia nós decidimos criar quatro vicariatos (espécie de “subprefeitura eclesiástica”) que vão dividir o território da Arquidiocese de Olinda e Recife em quatro regiões: norte, sul, leste e oeste. Isso vai descentralizar um pouco a administração. Também criamos dez comissões pastorais, cada uma voltada para uma missão específica, como a promoção do ecumenismo, da liturgia e a aproximação da sociedade e das causas sociais. Não é para o padre ficar esperando que o povo venha, tem que ir atrás.

Por falar em causas sociais, qual foi o papel da Igreja na ajuda aos desabrigados das chuvas de junho na Mata Sul?

Eu estive lá pessoalmente e vi a realidade. Temos recebido muitas doações, que estão sendo reunidas na Várzea e mandadas diretamente para a diocese de Palmares. Lá, tem um grupo de missionários que está encarregado de fazer essa distribuição. Essa região não é da minha responsabilidade, mas é uma diocese vizinha, a gente precisa ser solidário com essas pessoas.

E como o senhor se posiciona em relação à polêmica do futuro Parque da Tamarineira?

A Tamarineira foi uma situação anterior à minha gestão, “peguei o bonde andando”, como dizem. Coube a mim tornar público o contrato que foi assinado antes e tentar conscientizar a sociedade do valor daquele acordo. O projeto (que previa o arrendamento do terreno do atual Hospital da Tamarineira pela empresa carioca Realesis e a construção de um centro de compras no local) não era de se desprezar, de jeito nenhum, mas o prefeito (do Recife, João da Costa) decidiu desapropriar o terreno. Estou esperando que ele nos procure para ver como vai ser essa desapropriação.

Se coubesse ao senhor analisar o contrato com a Realesis, teria assinado?

Eu teria que ver com mais paciência os detalhes do projeto. Eu não vivi aquela realidade, mas vi que houve uma pressão grande sobre Dom José (Cardoso Sobrinho, antecessor de Saburido como arcebispo) porque havia questões econômicas também envolvidas. Ele tinha que dar uma solução, resolver esse caso. Eu acho que (o contrato) foi uma saída boa para a realidade que a arquidiocese vivia naquele momento.

E como a arquidiocese vai cuidar do patrimônio que possui, apesar da dificuldade financeira?

A Igreja tem bens artísticos, culturais e históricos que têm um valor incalculável e precisam ser preservados. O Governo do Estado me procurou, desde a minha chegada para fazer uma parceria para abrir as igrejas à visitação.

O Circuito das Igrejas?

Sim, o circuito. Nós concordamos e apoiamos.

Mas o circuito saiu do papel?

Não a contento. Houve uma promessa de colocar câmeras de segurança e policiamento nas Igrejas, mas elas não foram instaladas e o policiamento que tinha era rotativo. Quando terminou o contrato, eles só tinham mandado para lá os estagiários. As igrejas são monumentos importantíssimos e é um direito do povo conhecê-las. Elas também atraem turistas, e a gente não pode se fechar a isso.

Que avaliação o senhor faz desse ano?

Tenho mais a agradecer do que lamentar. Foi um ano muito especial na minha vida e continua esse clima de alegria e compromisso com a missão. É claro que houve algumas dificuldades, sobretudo essa da Tamarineira, que a gente teve que enfrentar. Mas o povo está chegando junto e vamos superar os desafios.

Superar como?

O principal plano para o próximo ano é iniciar as visitas pastorais em todas as 101 paróquias da Arquidiocese. Assim vamos conhecer melhor a realidade. Essas visitas vão demorar dois, três, até cinco dias dependendo da comunidade. Queremos ter uma visão mais clara sobre cada uma delas.

O que o senhor aprendeu como arcebispo?

Que é preciso ter a humildade para reconhecer que ninguém é dono do saber. A gente aprende muito com a vida, principalmente no contato com as pessoas. O diálogo é o único caminho que eu vejo para o entendimento. Ninguém consegue resolver nada com arrogância, temos que dialogar e reconhecer o valor do outro. É por aí que a gente vai construir uma sociedade nova.

Saiba mais

Dom Antonio Fernando Saburido nasceu em 10 de junho de 1947 no distrito de Jussaral, no município do Cabo de Santo Agostinho. Em 1983 ele foi ordenado sacerdote pela Ordem de São Bento. Em 1989 ele assumiu a paróquia de São Lucas, em Ouro Preto, Olinda. Já a primeira passagem de Dom Fernando pela Arquidiocese de Olinda e Recife foi em 1998, quando assumiu o posto de vigário-geral. Ele também foi bispo de Sobral (CE) entre 2005 e 2009, quando foi nomeado arcebispo substituindo Dom José Cardoso Sobrinho.


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