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Diálogo com um Filósofo Ateu


Domício Pereira de Mattos

Meu caro filósofo Michel Onfray:
Apresento-me a você como teólogo, com mestrado no Union Theological Seminary de Nova York e experiência religiosa cristã, aos 89 anos e 6 meses, sem o menor arrependimento de ter vivido a fé cristã. Conheci-o e admirei-o através de sua entrevista em "Veja", publicação brasileira que chegou às minhas mãos ontem (22 de maio de 2005). Fiquei espantado, ao terminar a leitura, por concordar com algumas de suas afirmações... Pode, porventura, um cristão na provecta idade, próxima dos 90 anos, concordar, em algum ponto com o pensamento de um filósofo ateu de 46 anos?...
Pode.

1. Concordo com você quando diz: "...quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás da fé." Claro, a fé não pode ser irracional. Inverto: não podemos deixar a fé, com F maiúsculo, em segundo plano atrás da razão. Fé e razão são irmãs gêmeas e juntas apontam para a Verdade.

2. Concordo com você quando afirma que existem mecanismos religiosos ilusórios e que "o encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por trás das crenças". Sim, inúmeras vezes mecanismos, engrenagens e razões materiais deturpam a crença. O cristianismo condena escribas e fariseus hipócritas (presentes em toda a as religiões). Fabricam as engrenagens, a mecânica e razões materiais para sustentar "crenças" que, de fato roubam a liberdade e a dignidade da pessoa humana e favorecem financeiramente os promotores dessa ação que ofende a moral. Todo o capítulo 23 do Evangelho de Mateus traz a palavra de Jesus Cristo contra esse tipo de religiosidade. A leitura desse capítulo do Evangelho é como se estivesse lendo o seu minuncioso discurso contra procedimentos religiosos...

3. Concordo com as contradições, apontadas por você, nos livros religiosos cristãos, judeus e muçulmanos, entre a pregação da paz e a violência que praticam; o mandamento "não matarás" e ao mesmo tempo autorizando a matar e até dizendo como fazê-lo. Suas palavras: "O que quero é mostrar que as religiões, que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário. Se devem a eles (os que crêem em Deus) tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, como prova da inanidade das doutrinas"... Em face dessas contradições e inanidade até justifico o seu ateísmo. Apenas afirmo que tais contradições surgem no conceito que se tenha de Deus. Em face de alguns desses conceitos, eu também sou ateu.

Exemplo 1: Na Praça de São Pedro, no Vaticano, em fins de Setembro de 1935, o Papa Pio XI reza uma missa campal e abençoa, em nome de Deus, o exército italiano que partia para invadir a Etiópia, na África... Que deus é esse que abençoa exército que parte para a guerra, invadindo nação mais fraca, destruindo e matando gente inocente?!... Nesse deus eu não creio!

Exemplo 2: Na base americana de Canaveral, Flórida, numa madrugada, entre os dias 5 e 6 de Agosto de 1945, altas autoridades civis e militares se postam em torno de um avião; o capelão protestante lê a Bíblia, ora a Deus pedindo para abençoar o piloto e avião que, naquela madrugada partia para o Japão. Levava sob suas asas a bomba atômica que seria lançada sobre Hiroshima... Que deus é esse que abençoa avião e a bomba a ser lançada sobre uma cidade indefesa, destruindo-a, e matando oitenta mil inocentes e inutilizando outros oitenta mil para o resto da vida?!... Se deus é isso e autoriza essa prática de violência, então eu sou ateu: não creio nesse deus!...

Clamo com você contra essa contradição que afirma ser Deus Amor e ao mesmo tempo abençoador de assassinos... Só que você, por causa desses conceitos, se torna ateu; eu continuo a acreditar no Amor de Deus e a deplorar aquelas concepções estapafúrdias de um deus que manda matar!?... Desgraçadamente, nação dita cristã, em nome de princípios religiosos, invade a outra, mata inocentes, sacrifica seus soldados e o "mundo chamado cristão" fica torcendo pelo êxito de missão tão contraditória com aquilo que Deus verdadeiramente é...

4. Concordo com você quando diz: "...uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas (...) e dar à razão o poder e a nobreza que ela merece. Essa a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo, pelo menos de todo o filósofo que se dá ao respeito", apenas acrescento: o filósofo não precisa ser ateu. Cito Sócrates: "Espero com paciência até que saibamos com certeza como nos devemos portar para com Deus e para com os homens" (*). Insisto, com o seu discípulo Platão, que, na mesma linha, prossegue; "Esperamos por alguém, seja um deus ou um homem inspirado para instruir-nos acerca dos nossos deveres e tirar as trevas dos nossos olhos" (*). E, ainda, Pitágoras: "Não é fácil conhecer os deveres a não ser que o próprio Deus os ensine, ou alguma pessoa que os tenha recebido de Deus ou os tenha conhecido por algum processo divino" (*). Pergunto: são eles(Sócrates, Platão, Pitágoras) "filósofos que não se dão ao respeito"?... (*) As citações com asterísticos estão na página 112, Volume I da Systematic Theology de Augustus Hopkins Strong.

5. Bem postas suas palavras sobre o Papa: "O fervor pela morte de João Paulo II tem a ver com o fato de ele ter sido o primeiro "papa catódico", o homem mais filmado do planeta." Não sou católico, entretanto, considero que Wojtyla foi um cristão sincero e como cristão presumo que sua luminosidade e florescência teve como cátodo invisível, que penetra corpos opacos e o fazem resplandecer, não os holofotes da tecnologia televisiva e sim a luz do Cristo, que se projeta naquele que sinceramente crê nele, a ponto de dar-lhe esta missão: "brilhe a tua luz diante dos homens" (Mateus 5.16). Se todo cristão projetasse essa luz o mundo seria maravilhoso!

6. Você insiste em um ponto controvertido: "A filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu, às religiões. É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massa". Quem aqui, não concorda com você são os filósofos acima citados e eu inverteria, outra vez, a sua proposição: É preciso passar das lucubrações filosóficas para a era da teologia de massa... Aliás, teologia é um campo da filosofia.

7. Finalmente, já estamos em campos de não concordância, porque eu penso como os críticos católicos, citados por "Veja", que alegam serem suas idéias uma repetição de antigos argumentos contra a existência de Deus e a religião. E você concorda, afirmando: "Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e realizar o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me responder por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos". Volto a concordar, em parte, com você: cristãos não muito autênticos (católicos, ortodoxos, protestantes ou evangélicos) propagandeiam erros que nada têm a ver com a filosofia cristã de vida. Como também muitos filósofos, através dos tempos afirmaram coisas absurdas, estratosféricas que nada têm a ver com a realidade vivencial.

Concluo afirmando que o meu "diálogo" com a entrevista que você deu à "Veja" não tem absolutamente a intenção de convertê-lo do ateísmo ao teísmo. Respeito a sua vocação atéia-filosófica e volto a felicitá-lo pelas idéias colocadas na entrevista porque são, na verdade, um alerta aos religiosos, especialmente aos meus irmãos cristãos... Propagam muito a fé, mas vivem muito pouco o que ensinam. São eles os responsáveis pelo ateísmo e cepticismo que se alastram pelo mundo. Falam de Jesus Cristo, que é a Verdade, mas são incapazes de viverem o seu ensino, cujo fundamento é o AMOR... Brigam uns com os outros. Criam os guetos religiosos e se tornam, em cada um deles, os donos da verdade e nunca se lembram da oração de seu Mestre e Senhor: "Ó Pai, que todos os que crêem em mim sejam um, como tu és em mim e eu em ti, para que o mundo creia" (João 17:20-21). Faço de sua entrevista um libelo a fim de acordar a consciência cristã para a responsabilidade do testemunho da fé em Cristo, Senhor nosso.

Não dou provas da existência de Deus porque não as tenho e não as encontrei na teologia e nem na filosofia, entretanto jamais encontrei também provas da não existência do Ser Supremo, aquele que é desde toda a eternidade; chame-o como quiser; Javé, Alá, Adonai, Eloim, Energia Cósmica, Deus, Cristo ou Espírito Santo...

Crer em Deus é um sentimento, profundamente introspectivo e pessoal. Sinto Deus como o ar que respiro... Sem Deus em mim, eu não sou nada!



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